domingo, 11 de agosto de 2019
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O dilema da Confraria
Tentarei não me alongar.
Já faz quatro meses desde o último post. Os motivos são basicamente dois: em primeiro lugar, admito que dá uma certa preguiça postar regularmente; até porque as musas da inspiração nem sempre são assíduas. Mas existe também o problema da falta de motivação: quase ninguém comenta, o que me demonstra que quase ninguém lê, e portanto me parece desprovido de sentido continuar publicando textos para lançar ao vazio (até porque a única vantagem de publicar aqui é o feedback - sem isso, pra quê postar?).
Eu gostaria de ouvir a opinião dos leitores, se é que ainda existe algum. O problema é a falta de interesse? A falta de tempo pra ler regularmente? A falta de paciência pra ler textos longos no computador?
Me parece óbvio que não é possível levar adiante o blog no atual formato. Talvez fosse necessário repensar o quê se publica aqui: talvez fazer algo mais "dinâmico", com textos curtos, observações sobre o dia-a-dia, vídeos do youtube, curiosidades, sei lá. Ou então fazer algum tipo de campanha para atrair mais leitores: alguém acha que isso funcionaria?
Gostaria de pedir para que todos que vierem a ler este post escrevam um comentário - nem que seja um "oi" em anônimo - para eu poder ter uma idéia de quantos ainda lêem o blog.
Abraços,
Salpicão
terça-feira, 12 de maio de 2009
Manifesto pelo fim da família
Não, meus amigos, o Bola não acordou um belo dia e pensou "Ei, é legal ser babaca!". O "malandrex way of life" é resultado do jeito como essas pessoas foram criadas na infância - mimos, falta de atenção e de imposição de limites por parte dos pais, ausência de incentivo à leitura, entre outros, são coisas que contribuem para criar um adolescente e um adulto que apresentem comportamentos danosos em relação a certos setores da sociedade. Óbvio que eles também têm responsabilidade por suas ações, mas a estrutura do que eles são foi assentada na época de aprendizado da tenra infância; eles apenas expandiram (alguns com enorme sucesso, digamos) as estruturas mentais que já possuiam.
Qual o motivo disso? A lógica educacional inerente ao atual modelo de família nuclear (vulgo: Papi+Mamis+X Filhos). No mundo capitalista, em que todas as relações se definem pela posse, os filhos tornam-se mais uma das posses dos pais (mesmo que estes não o admitam, pelo menos conscientemente). Todo pai quer que o filho seja o MAIS inteligente, MAIS bonito, MAIS popular, MAIS querido, MELHOR atleta... enfim, que aquele proto-humano que eles mesmos criaram cresça e torne-se um vencedor. Sim, porque hoje em dia todo mundo aspira a vencer; mas o que todos parecem ignorar é que, para alguém vencer, alguém tem que perder... no extremo desse cenário, estão os pais que não se preocupam em dar a seus filhos uma formação cultural e social sólida, apenas em dar total liberdade a ele ("Porque o MEU filho merece; ele pode fazer o que quiser") e uma educação baseada no princípio de adaptação aos medíocres valores ideológicos da época para garantir destaque social - a tal da "vitória".
Já as perdas se dão em diferentes níveis da atuação social; no que se refere à linha de raciocínio estabelecida no primeiro parágrafo, quem perde são os que têm que suportar os Nahas da vida. Num âmbito mais generalizado, perdem aqueles que são forçados a viver em um mundo calcado no princípio da individualidade e da vitória pessoal. Sem contar que existem aqueles que nem chegam a ter uma chance de lutar na tal batalha pela vitória: só os filhos de famílias abastadas têm a chance de continuar no topo.
E onde está a raiz desse mal? Na tal da "família nuclear" (ou "família burguesa", como dirão os mais tendenciosos); enquanto os pais continuarem achando que o trabalho de educador e o de técnico esportivo são essencialmente o mesmo, o mundo continuará essa bagunça.
Qual a solução? Eu poderia tentar enumerar algumas medidas mais concretas, passíveis de implementação no mundo atual, mas é muito mais divertido (literariamente falando) elaborar uma sociedade utópica. Imaginem o seguinte cenário:
As crianças, ao nascer, não chegam a conhecer seus pais biológicos. São imediatamente levadas para berçários coletivos (conforme crescem, vão sendo transferidas para alojamentos coletivos separados por faixas etárias, onde passam a dispor de um grau crescente de independência), sustentados pelo governo. Sempre que possível, os adultos dedicam-se a cuidar das crianças, sem distinção entre elas; como os adultos não têm a noção de posse sobre as crianças (não existe "o MEU filho!" e "o filho dos outros..."), todas as crianças recebem doses iguais de amor e carinho (os adultos agiriam com a ética de um professor, que dá um tratamento supostamente igualitário a toda a classe, ajudando a todos na medida do possível). O governo encarrega-se de prover todas elas com uma educação igualitária e de qualidade; desse modo, as crianças são salvas da educação mesquinha e individualista proporcionada por algumas das famílias atuais. Além disso, podemos concluir que, mesmo que nessa sociedade exista desigualdade econômica, este não seria um mal crônico, como atualmente - afinal, a cada geração, as coisas recomeçam do zero: uma criança gerada por um casal pobre é tratada da mesma forma que a criança gerada por um casal rico. Por isso, todos têm chances iguais, e as diferenças de renda ocorreriam baseadas muito mais no esforço pessoal do que na predestinação.
A interação social também seria muito mais intensa nessa sociedade; afinal, não existem "filhos únicos", as crianças convivem o tempo todo com centenas de outras de sua faixa etária, além de receberem afeto de todos os adultos. Nesse mundo, haveria reduções drásticas nas taxas de ocorrência de psicoses, timidez, suicídio, entre outros males de raiz psicológica.
Talvez alguns rebatam essas propostas dizendo "Eu nunca aceitaria isso, porque é um absurdo que me levem meu filho de mim logo que ele nasce; eu gostaria de ter o prazer de criá-lo". O que essa pessoa não vê, talvez, é que nessa sociedade todas as crianças seriam seu filho; você não seria mais obrigado a direcionar todo o seu amor a uma única criança só porque ela carrega os seus genes. Ao ajudar na educação das crianças, cada pessoa experimentaria o prazer de criar um filho, só que infinitamente multiplicado, já que estaria ajudando a causar um impacto em uma porção muito maior do mundo.
Bem, enfim... chega de divagações por hoje.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
CCA223: Fundamentos da Literatura Japonesa I
Quando o vento sopra e balança a copa das árvores, as folhas que se desprendem dos ramos rodopiam pelo ar e pousam na superfície cristalina dos rios e lagos. Lá, os vários ideogramas se juntam ao acaso, soletrando idéias, poemas, narrativas; aqueles que sabem ler reunem-se nas margens dos lagos e lá vislumbram canções épicas e histórias de tempos passados, além de supostas profecias e presságios. Na literatura japonesa, não há a concepção de autoria; não há escritores, apenas escribas - homens que se dedicam a copiar os versos compostos pelo flutuar das folhas de cerejeira.
Esta é uma escrita fluida e efêmera; com o balanço das águas, as pétalas se recombinam infinitamente, gerando um número também infinito de escrituras; com sua dinâmica caótica e imprevisível, a água é reverenciada pelos japoneses como o maior contador de histórias do mundo.
O título é uma referência ao modo como as matérias da USP são nomeadas
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Da confecção de ovos de chocolate
Sim, meus amigos; pois quanto mais nossa sociedade se torna industrializada e de massa, mais surge a tendência do "faça você mesmo" - uma aparente escapatória para a economia de consumo de massa. Porque quem é consciente, alternativo, descolado, diferente, não compra os produtos industrializados que todo mundo tem; não, essa pessoa precisa ser única. Então, para se diferenciar, para não se inserir no mercado de massa e desalmado, ela se sente impelida a fabricar os produtos ela mesma - dar o seu toque pessoal, criar um produto único e diferenciado, avesso à produção em série.
Cada época exige algo diferente de suas humildes habilidades de artesão - no aniversário dos seus amigos você procura fazer algo criativo e com um toque de humor, no Dia das Crianças você dá brinquedos educativos feitos em casa para seus sobrinhos, no Natal você se esforça para ter uma idéia mirabolante para presentear aquela pessoa que sempre ganha o mesmo conjunto de presentes (uma gravata, um vidro de perfume e um livro qualquer que deu na Veja da semana passada)...
E na Páscoa... bem, na Páscoa você obviamente quer criar um ovo de chocolate artesanal, feito em casa, com carinho e amor, bem diferente do ovo das Meninas Superpoderosas que n+1 crianças vão ganhar nesta Páscoa e em todas as Páscoas. Para presentear aquela pessoa especial, você resolve fazer você mesmo um ovo.
E lá vai você na internet, essa verdadeira Biblioteca de Babel (ver conto homônimo do Borges), a fonte de todo o conhecimento do homem moderno. Você encontra aproximadamente dez milhões de receitas de ovos de páscoa caseiros, dando instruções conflituosas, fornecendo dicas bizarras (o chocolate deve ser trabalhado na temperatura de 28 graus celsius, o chocolate deve ser "suado" antes de ser embalado, as fôrmas de silicone são melhores, COMPRE VIAGRA PREÇOS ACESSÍVEIS CLIQUE AQUI, etc.), mostrando fotinhos que fazem com que o processo todo pareça muito fácil.
Você enfim escolhe uma das receitas. Próximo passo: encontrar a tal da fôrma. Dica: reserve mais algumas horinhas de pesquisa na internet pra conseguir achar um estabelecimento que venda fôrma de ovo de páscoa e não fique em Pirapora do Bom Jesus. E, é claro, quando você chegar lá, todas as fôrmas terão sido vendidas e a encomenda com as novas só chega amanhã.
Próximo passo: peregrinar pelo Largo da Batata até encontrar outra lojinha que venda o produto desejado. Quando você finalmente encontrar, as vendedoras vão tentar te empurrar uma dúzia de outros produtos afins: papel chumbo colorido pra embrulhar o ovo, papel celofane, fitas coloridas a 10 reais o metro, cestinhas de vime super fofuxas, chocolate para derreter, o livro Como Fazer um Ovo de Acordo com o Tao Interior, do Guru Swamawhiestheda...
Aí, quando você finalmente for fazer o tal do ovo, você vai perceber que não é tão fácil quanto as figuras fazem parecer. O chocolate derretido nunca fica tão cremoso e perfeito quanto o da foto; as camadas de chocolate não ficam homogêneas e lisinhas; é um suplício tirar o ovo da fôrma; e por aí vai, numa lista de desventuras culinárias que preenchem uma tarde inteira.
Mas enfim, depois de derreter o chocolate, aplicá-lo em camadas sobre a fôrma tomando o cuidado de esperar cada camada solidificar na geladeira antes de passar para a próxima, tirar o ovo da fôrma (deformando-o consideravelmente no processo), embalar em papel chumbo (e você percebe que a folha que você comprou não é suficiente para cobrir o ovo inteiro), juntar as duas metades ("Por que elas não encaixam? A fôrma era a mesma!") e lutar para embrulhá-las no celofane e fazer o lacinho sem que elas tornem a se separar, você finalmente tem o seu ovo caseiro, artesanal, único.
Artesanal mesmo? Sim, porque não foi você que fabricou a fôrma ou fez o chocolate; ambos são produtos industrializados que você comprou prontos. O mesmo pode ser dito do papel chumbo, do celofane, do lacinho, e dos N itens que você poderia ter comprado pra incrementar sua obra (rosas de glacê, chocolate branco pra fazer pequenos detalhes, cestinha de vime, cartão de coração, etc.) A sociedade do "faça você mesmo", então, revela-se como um mero apêndice da economia de massa: ao invés de comprar o produto industrializado pronto, você compra os componentes industrializados e os recombina. As tais pessoas super criativas e alternativex que fazem os próprios presentes continuam seguindo a lógica do mercado; apenas trilham um caminho alternativo, oferecido pelo próprio mercado.
Bom, enfim. O ovo ficou gostoso, pelo menos.
Ah! Uma boa Páscoa pra todos vocês, com ovos feitos em série ou não.
domingo, 22 de março de 2009
God is a Writer*
a)Ele trapaceou
b)Ele é sortudo
c)Ele é um gênio
d)Estava escrito
quarta-feira, 18 de março de 2009
O Retorno do verdadeiro Rei
sexta-feira, 13 de março de 2009
Flor do Deserto
Quando estou aqui, a confusão do mundo externo se dissipa e eu sinto que posso enfim enxergar com clareza; aqui há uma expansão dos tímidos pensamentos que povoam minha mente e que lá fora são oprimidos pela impiedosa realidade - eles parecem ganhar vida própria, tentando preencher todo o silêncio e espaço vazio que imperam neste lugar.
A câmara em si parece mais uma gruta do que uma sala esculpida por mãos humanas. O chão é ocupado por uma rede de buracos hexagonais, quase como uma colméia. O propósito desta formação é desconhecido; os buracos são preenchidos por água, formando um espelho d'água multifacetado, mas não sei se este era o propósito inicial ou se isto é apenas a conseqüência de anos (talvez séculos) de abandono. O reflexo produzido na superfície aquosa duplica a sala, criando um mundo idêntico, embora invertido; no hexágono que fica no centro exato da sala, ali onde os dois mundos se tocam, cresce uma rosa, tanto para cima quanto para baixo.
Lá em cima, não há nada vivo por quilômetros; apenas dunas e rochas. Aqui embaixo, no entanto, nasceu esta rosa - um fragmento de vida escondido num ventre secreto sob o deserto, a antítese de sua pele arenosa e morta. Entre as ruínas de uma civilização esquecida pelo tempo, nasce um monumento à esta civilização, e a todas que a precederam e sucederam: um símbolo que sintetiza toda a vida do Homem neste mundo - a luta contra a morte.
Sim, a luta contra a morte. A luta para estender a vida, tanto literal quanto figuradamente. Este templo foi erguido por mãos que há muito estão mortas; o produto do planejamento e da força de vontade que moveram aquelas mãos, no entanto, perdura.
Ontem tive um sonho. No meu sonho, a rosa crescia, crescia e tornava-se gigante; rompia o teto desta câmara, destruía as paredes do templo, e por fim brotava no solo infértil do deserto.
No entanto, este crescimento obviamente implicava também um crescimento no sentido oposto; no seu reflexo, a rosa penetrava cada vez mais nas profundezas da terra...
Uma rosa bilateral, gigantesca e maravilhosa; mas acima de tudo, transitória, uma pequena brecha na aridez do deserto antes que suas pétalas fossem carregadas pelo vento.
terça-feira, 3 de março de 2009
O Retorno do Rei
Peço perdão pela súbita interrupção nas publicações deste diário virtual. Acontece que as atribulações próprias de fim/início de ano somaram-se à um projeto literário que empreendi durante o mês de fevereiro e fim de janeiro; logo, todo o tempo que eu dedicaria à escrita de material para este espaço foi consumido por textos afins. Claro que não posso responder por meu colega, mas imagino que ele esteja um tanto quanto enferrujado após o longo período dedicado ao curso preparatório para o vestibular de nome EJAPA (digo, ETAPA); além disso, recentemente ele empreendeu uma mudança de município, creio que para fugir do assédio de suas fãs. Não revelarei o nome do município em questão para proteger a privacidade do supracitado colega, mas não me surpreenderia se ele não voltasse a postar por algum tempo, ocupado que está em construir sua cabana, caçar o próprio alimento e recriar nos confins onde está instalado certos luxos do mundo moderno como a roda e o fogo.
Muita coisa mudou da última postagem para cá. Agora não estamos mais constrangidos pelas limitações impostas pela escola; junto com a liberdade decorrida desta nova situação (afinal, não há mais uma curva de aprendizado pré-estabelecida, igual para todos; cada um deve cuidar de perseguir seus próprios interesses e desenvolver seus próprios projetos) vem o outro lado da moeda: a separação. Os caminhos que seguiam mais ou menos paralelamente agora divergem para uma multiplicidade de pontos no espaço.
Gostaria que este espaço fosse um reflexo das mudanças pelas quais estamos todos passando, e ao mesmo tempo um ponto de encontro onde amigos de longa data podem se reunir sob pseudôminos extravagantes para discutir e comentar as coisas publicadas. Gostaria também de clamar para que meu colega volte a fazer-se presente por aqui; seus registros cotidianos sem dúvida configurarão valioso banquete para nós, relatando impressões colhidas em um ambiente diverso no qual ele levará uma vida também diversa da nossa, caracterizada pela independência prematura.
Declaro inaugurada, portanto, uma nova fase da Confraria. Leia-se: coisas voltarão a ser postadas aqui com uma certa frequência (atenção para a trema, que entrou oficialmente em desuso), e elas estarão carregadas das marcas deixadas pela novidade que é a vida universitária.
Infelizmente, não posso prometer uma regularidade maquinal; como sempre, as intempéries da vida abreviam o tempo que pode ser dedicado ao blog. No entanto, tentarei não abandoná-lo por um tempo tão grande quanto o desta última interrupção.
Com carinho,
Salpicão
PS.: O título desta postagem não é de forma alguma uma exaltação de minha pessoa ou uma declaração de parentesco nobre, mas uma mera referência cinematográfica, conforme era tão comum na aurora deste website (recomendo a leitura dos escritos de março e abril últimos para os desinformados)
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Uma questão de ponto de vista
- E aí, cara? Tudo pronto?
- Tudo à pampa... vambora, vamo pegar a estrada logo...
- Você... você tá levando... aquilo?
- Sim, tá numa caixinha dentro da minha mala. Eu mesmo preparei hoje de manhã. Tô te falando, o negócio é de qualidade...
- Da hora, da hora...
- Usei chocolate suíço pra fazer, e aquele leite condensado extra cremoso...
- Putz, tá forte o bagulho... temo que ter cuidado pra não dar bandeira, hein...
- Relaxa, relaxa, você sabe que eu sou de boa...
- Você acha que não tem perigo da polícia parar a gente?
- A essa hora da manhã? E também, se pararem, qual o problema? É só agir natural... não sei se você sabe, mas nem todo mundo que vai pra praia no feriado é brigadeireiro.
- Putz, tô ouvindo uma sirene... ai, caralho, por que é que eu tinha que falar nisso... tão me mandando parar. O que que eu faço?
- Relaxa, cara, relaxa... oh, o tira tá vindo aí... não vai entregar o jogo, hein!
- Bom dia, bom dia....
- Bom dia, senhor.
- Indo pro litoral?
- É... faz tempo que não tem feriado, né? Tem que aproveitar...
- E vocês vão ficar aonde?
- Um amigo nosso tem casa em Maresias...
- Certo, certo... o senhor poderia mostrar o porta-malas? O senhor entende, só estou realizando uma vistoria padrão....
- Claro, claro, por que não? Um momentinho...
- Certo, certo... eu posso abrir a mala?
- Claro, claro...
- Hmmm... hmmmm... e o que é isso aqui nessa caixinha, você pode me explicar?
- Isso? Não é nada, senhor... é só maconha....
- Maconha, é? Sei, sei... olha, pra mim isso aqui tá com cara de brigadeiro!
- Brigadeiro? Não, senhor... imagine, eu, levando brigadeiro na mala? Não, eu tô falando, senhor, isso aí é maconha...
- Sei, sei. E a vovó não mandou ecstasy e LSD também, por acaso? Eu reconheço um brigadeiro quando vejo um, rapaz. Bom, vamos ver como vocês explicam isso pro delegado. Alfredo, leva esses dois pra viatura. César, pode fazer o B.O., nós vamos apreender isso aqui.
- Sim, senhor. É quindim, senhor?
- Não, não, felizmente não é nada desse tipo. Só dois moleques levando brigadeiro pra praia. Parece que esses adolescentes só conseguem se divertir se for com doces... e o desgraçado ainda tentou me convencer que era maconha.
- Logo se vê que os dois são iniciantes... quer dizer, o pessoal geralmente esconde doces dentro de papelotes de cocaína... mas esses aí tavam simplesmente levando o brigadeiro na moral, como se fosse crack ou algo do tipo.
- Bom, pelo menos eles ainda não partiram pra paçoca ou pro mocotó.
- Mas com essa juventude, nunca se sabe... Ei, chefe, posso te perguntar uma coisa?
- O que foi, César?
- O senhor é a favor da legalização do brigadeiro?
- Você quer minha opinião como policial ou como pessoa?
- Como pessoa, claro.
- Olha, acho que as pessoas devem ser livres pra fazer o que bem entenderem, sem que precise morrer gente no tráfico para isso. Quer dizer, já está comprovado que o açúcar faz mal para a saúde, não está? Se as pessoas quiserem consumir mesmo assim... bem, o problema é delas, não meu.
- Esse mundo seria um lugar melhor se todos pensassem como o senhor sobre o açúcar, chefe...
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Pré-escola
- O que é o seu desenho, Pedrinho?
- É o Sol, professora.
- Que lindo Sol, Pedrinho! E o seu, Renata?
- É a minha mamãe...
- Puxa, que lindos os cabelos verdes da mamãe! Vejamos o seu, Roberto... nossa, quantas cores! O que é isso?
- É uma composição abstrata com tendências cubistas que representa a complexa inter-subjetividade humana, que molda dinamicamente as sociedades e os indivíduos de acordo com um Ethos cambiante dirigido por valores em constante transformação.
- Que gracinha, Roberto! Está muito legal, mas que tal você desenhar a sua família ou o seu animalzinho de estimação?
- Tola, mil vezes tola! “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”, disse Salomão. A disposição de pigmentos em um papel jamais poderia encapsular a essência objetiva da realidade; o Homem é um triste animal cego, tropeçando pelo mundo e tentando em vão defini-lo, encontrar um lugar, prender em seus livros e em sua moral e em seus costumes a matéria fugidia e elusiva que compõe a existência. Para quê curvar-se à ilusão de que é possível capturar a serpente esguia, criar uma ilha de racionalidade em meio ao caos? Do pó viemos e ao pó voltaremos, e tudo o que se passa nesse interregno são meras mudanças de estado físico! Adeus, corja de paralíticos presunçosos! Prossigam sem mim na doce ilusão de viver no inferno o paraíso!
- Crianças, o papai e a mamãe não precisam ficar sabendo que o amiguinho se jogou pela janela, combinado? Agora, quem quer ser o próximo a mostrar o desenho?
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Ode ao Tietê
Carregas à tua mercê
Até a mais orgulhosa nau
O teu nome: Tietê
Refúgio dos esbaforidos
Oásis oportuno
Já foste, em tempos já idos
A jóia de Netuno
Hoje tens o próprio valor
Libertastes-te do deus mesquinho
Nos encanta com o candor
Do teu doce burburinho
Tietê! És o resumo
De tudo quanto é belo e bom
Do teu curso o aprumo
É certamente o maior dom
Tuas águas fulgurantes
Abrigam ninfas em seu seio
Das tuas margens reconfortantes
A visão me dá anseio
És perfeito, belo rio
E lendária é tua glória
És símbolo do Brasil
E emblema da vitória
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Três condições curiosas
Certo dia, no entanto, quando sua mãe foi colocar a ração do cachorro, surpreendeu-se ao ver a imagem de um barco à vela flutuando na superfície da água da outra tigela. Olhou para cima e confirmou que aquilo não era o mero reflexo de uma imagem; com o dedo, ela agitou a água, mas, cessadas as perturbações, a imagem do barco continuava lá, como se certas moléculas de água houvessem se tornado coloridas e estivessem mantendo a mesma posição no espaço.
Alguns dias depois veio a solução do enigma da figura na água, tão estarrecedora quanto o caso em si: ao entrar no banheiro, a mãe encontrou o filho na ponta dos pés em cima de uma cadeira, debruçado sobre a borda da pia; ao aproximar-se, ela constatou boquiaberta que ele estava desenhando na água da pia, que estava cheia e conservava-se assim porque um tampão vedava o ralo. Quando ele deslizava o dedo pela água, a superfície se coloria e ia formando um desenho.
Com o passar do tempo, ele foi aperfeiçoando sua estranha arte; passou a desenhar em corpos d’água mais amplos. Certa vez usou uma fonte para criar uma fantástica pintura em movimento; no aniversário de sua melhor amiga, trabalhou por um fim de semana inteiro usando uma roupa de mergulho para criar uma pintura tridimensional na piscina da sua casa; quando o Natal se aproximava, usou um pequeno bote para desenhar uma enorme pintura abstrata no lago da cidade, e quando sua superfície se congelou as pessoas podiam patinar no gelo e desenhar sobre sua obra com os rastros de seus patins, tornando-a uma criação coletiva.
Sua renda mensal era alimentada por diversas contratações para elaborar a decoração de festas e eventos e criar efeitos para filmes. Quando a NASA desenvolvia os primórdios de seu programa espacial e enfrentava o problema de como estabelecer comunicação com astronautas em órbita ao redor da Lua, considerou contratá-lo para escrever gigantescas mensagens no oceano que pudessem ser lidas pelos tripulantes das naves espaciais; esta opção foi descartada quando argumentou-se que os astronautas não teriam meios de responder as mensagens. Em uma ocasião, ele sobrevoou de asa delta uma grande cidade, atravessando as nuvens carregadas suspensas sobre ela; naquele dia, a chuva foi colorida.
Quando ele percebeu que já havia levado sua arte ao extremo do requinte e as suas possibilidades já estavam quase esgotadas, decidiu que estava no momento de produzir sua obra final, algo que já planejava há muitos anos. Em um dia nublado, alugou um pequeno barco a vapor e partiu sozinho para o mar; desejava criar uma pintura que cobrisse todo o oceano, que transformasse a aparência do próprio planeta Terra.
Nunca mais foi visto, mas até hoje fragmentos de pinturas chegam à praia carregados pelas ondas, persistem por segundos na areia e então desvanecem.
Ao contrário das outras pessoas, que destrinchavam a realidade, separando-a em categorias de percepção como “visual” ou “auditiva”, Vladmir sentia um único ritmo harmônico que abarcava tudo ao seu redor; era como se ele ouvisse – ou melhor, sentisse – uma orquestra inteira, enquanto os outros podiam apenas ouvir violinos ou pianos.
Com o passar dos anos, no entanto, ele tornou-se capaz de controlar a forma como sua mente registrava as percepções unívocas que chegavam a ela. Dessa forma, ele conseguia simular a condição humana comum, percebendo os elementos da realidade através de um único sentido; porém, como as limitações da percepção humana convencional nunca o haviam restringido, seu modo de sentir o mundo quase sempre diferia do convencional. Ele podia, por exemplo, ouvir as pessoas, ao invés de vê-las; se ele as via como uma sinfonia, era sinal de que estavam atravessando um momento de conflito; se as via como uma sonata, era sinal de que estavam apaixonadas.
Sua primeira namorada fora um aroma de camélia; o dia em que sua mãe morreu, uma queimadura profunda. Certa vez havia tentado aventurar-se nas artes, para tentar exprimir a forma como via o mundo; ao contrário dos outros que haviam se lançado em tal empreitada no passado, no entanto, o seu modo de viver era exclusivo demais, e uma comunicação não podia ser estabelecida com os espectadores. Van Gogh nunca chegou a ser compreendido em vida, mas pelo menos ele via imagens e ouvia sons, e produzia sua arte segundo essa separação fundamental; já a obra que Vladmir produzira não era nem uma música, nem um livro, nem um quadro nem uma coreografia, mas sim uma espécie de absurda mistura entre todas essas mídias, algo que causou um estranhamento profundo em todos aqueles que presenciaram sua execução e mais de uma proposta de internação em um manicômio. Desolado, ele desistiu da vocação artística e nunca mais apresentou aquilo que, segundo fontes, ele chamara de “Dó Ré Mi Verde”.
A habilidade de Vladmir foi finalmente valorizada quando seu estranho caso chegou ao conhecimento de um membro do alto escalão da CIA, que percebeu que sua percepção diferenciada da realidade poderia ser usada a serviço da segurança nacional. Ao ver as pessoas na forma de música, por exemplo, ele desnudava as camadas mais íntimas do indivíduo, e poderia perceber terroristas em potencial; da mesma forma, percebendo visualmente os cheiros ele poderia identificar vazamentos de gases nocivos ou rastrear carregamentos de drogas.
Vladmir morreu tragicamente enquanto liderava uma operação anti-bombas; como ele via os fios “trinado de pássaro” e “gosto de lasanha” ao invés de “verde” e “vermelho”, ele cometeu um equívoco e infelizmente cortou o fio errado.
Não habitava uma dimensão propriamente dita; seu reino era a dimensão entre o real e o imaginário. Sua existência dependia da ação criativa de um outro; não possuía corpo, e só se cristalizava em um ser quando algum escritor pressentia sua presença e o encarnava em um personagem, transmutando-o em uma nova aparência e adequando as nuances de sua personalidade ao novo avatar.
Dessa forma, já havia sido o capitão Ismael, na frenética caça à Moby Dick; o Professor Moriarty, constantemente tramando contra Sherlock Holmes; Phileas Fogg, em sua ousada volta ao mundo em 80 dias; Tom Sawyer, Jay Gatsby, Auguste Dupin, Horacio Oliveira, Ulisses, Werther, Bento Santiago...
Ao ser novamente despertado de sua catalepsia para ingressar no mundo palpável da palavra escrita, aproveitou-se de uma inédita obscuridade proporcionada pela ausência de descrições para infiltrar o mundo real sorrateiramente, galgar as escadas munido do punhal e adentrar incógnito o quarto onde o insuspeito escritor, crente na ficcionalidade de seu relato, perpetrava o seu ofício momentos antes de ser brutalmente assassinado, deixando inconclusa sua obra e dissolvendo assim a existência de seu próprio assassihwrij9q3t-h
domingo, 9 de novembro de 2008
Entrevisões de um mundo a parte
A parte triste é que, quando você realmente se dá conta de que um desses momentos está acontecendo, geralmente você acorda e acaba esquecendo em questão de instantes o que estava pensando. Tive a sorte de conservar na memória uma dessas divagações, ocorrida na quinta-feira passada; compartilha-la-ei enquanto não me disponho a preparar algo melhor para a publicação neste diário virtual.
Era basicamente o seguinte: eu comecei a pensar que havia um certo homem, ao qual todos se referiam como "Mr. Robert", que todas as pessoas do planeta conheciam. A opinião pública sobre Mr. Robert era unânime: todos o admiravam. Sua notoriedade acabava gerando certas situações que pareceriam inusitadas a nós do mundo real, que não estamos acostumados com a onipresente celebridade de Mr. Robert; por exemplo, em uma certa ocasião na qual ele aparecia na TV junto com uma figura cujo renome é para nós absoluto - o Pelé, por exemplo (não lembro exatamente quem era, só lembro da situação) - uma pessoa que assistia perguntava, desinteressadamente: "Quem é aquele negrinho do lado do Mr. Robert?"
Bom, é basicamente isso. Espero ter conseguido apresentar a vocês uma pequena curiosidade recolhida diretamente do vasto mundo inexplorado do inconsciente.
Uma boa noite a todos (ou não, porque quem dorme bem nunca consegue acordar no momento propício para lembra desse tipo de coisa).
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Sobre andar por aí com um abacaxi na cabeça
Deixando de lado o problema da resistência à essa atividade (que pooderá, afinal, ser combatido com um simples argumento lógico: em quê o ato de andar com um abacaxi na cabeça é diferente, por exemplo, do ato de andar com um aro de metal ao redor do pulso ou com dois cilindros de pano ao redor das pernas?), passemos à descrição da aividade em si. Como sempre, uma imagem diz mais do que mil palavras, e portando será imprescindível que o leitor imagine (imaginar: imagem+ar; munir-se do giz de cera mental e rabiscar na margem da página, conjurando em pleno ar uma ilustração para o texto, uma visão pessoal e intransferível da idéia que se entrevê entre as palavras, e já chega de interrupção) a situação prposta - isto é, deve imaginar-se andando por aí com um abacaxi na cabeça, desfrutando dessa condição libertadora e causando frisson (dissimulado com graus variados de sucesso) entre os estupefatos transeuntes.
Em primeiro lugar, é importante fazer uma observação de caráter pragmático: as variedades da fruta cultivadas nas selvas tropicais de Bornéu são as mais convenientes para este fim, pois suas grandes proporções permitem que o abacaxi possa ser encaixado diretamente na cabeça mediante a preparação apropriada da fruta (que consiste em cortar longitudinalmente a porção inferior e remover a polpa). Caso contrário, além dessa preparação será necessário implementer alguns ajustes técnicos à estrutura orgânica, como a adição de uma fivela ajustável ou de eletroimãs (neste último caso, é necessário usar uma auréola magnética ao redor da cabeça para manter o abacaxi seguramente encarapitado no cocoruto), para que se possa circular com desenvoltura sem que o abacaxi caia a todo momento.
Ultrapassadas estas primeiras dificuldades práticas, o leitor estará pronto para sair às ruas coroado por um vistoso abacaxi; durante esta etapa da concretização da empreitada há muito teorizada e planejada virá o primeiro estranhamento, e é justamente esse o grande benefício derivado da utilização do abacaxi como acessório cefálico. É claro que existe uma ampla gama de benefícios secundários, como a nutrição e hidratação dos cabelos pelas substâncias químicas encontradas no abacaxi e a extravagante quebra com a monotonia do guarda-roupa cotidiano, mas o que realmente exalta os adeptos dessa curiosa peça de vestuário é sua utilidade como martelo: um martelinho que consegue quebrar um buraco na sufocante parede do hábito e da vida cotidiana, permitindo experimentar uma fugidia noção de maravilhamento e de descrença quanto à monolítica realidade que nos é apresentada como absoluta. Ao sair à rua, ao misturar-se às pessoas e casas e árvores de sempre, o usuário do abacaxi não poderá deixar de sentir-se apartado da rotina por sua estranha condição, não poderá conter alguma versão do seguinte pensamento: "Cara, eu estou andando por aí com um abacaxi na cabeça... isso é uma espécie de desconstrução da realidade; em face disso, tudo é possível. Por que me olham com essa cara? Por que andar com um abacaxi na cabeça seria mais absurdo do que o fato de que existem pesssoas andando por aí? O que é o abacaxi, o que são as pessoas?"
Infelizmente, a cinzenta operação mental chamada costume eventualmente assimilará o abacaxi, cobrindo com o veludo do hábito o buraco no muro. Talvez o tiro até saia pela culatra; o abacaxi viraria uma moda, totalmente desvinculada de seu significado original: apenas mais um acessório, mais um atributo adquirível para tentar tampar aparentes buracos na própria personalidade; milhares de pessoas andando pelas ruas vestindo abacaxis, Gisele Bündchen desfilando impassível e blasèe com um enorme abacaxi na cabeça.
Consideração final: Nem sempre os abacaxis são frutas amarelas e espinhudas com folhas verdes pontiagudas; eles tem o fugidio costume de esconder-se sob os mais variados disfarces, como o riso de um amigo, a roda de uma bicicleta, um gorro andino ou um parágrafo de um livro.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
O grande mal de escrever as coisas a mão...
domingo, 19 de outubro de 2008
Piadinha, meninos
"O Pelé, o Bozo e um português estavam em um avião, e ele começou a cair; porém, só havia um único pára-quedas. Por isso, o Pelé disse:
- Eu acho que eu é que devia ficar com o pára-quedas, porque eu sou o maior jogador de futebol do mundo.
Bozo retruca:
- Não, eu é que devia, porque eu sou o palhaço mais engraçado do mundo - e pula.
Aí o William Bonner diz:
- Ué, por que ele pulou com a minha lancheira?"
"Um italiano chamado Giuseppe, um Taj Mahal e um William Bonner estavam apostando uma corrida ao redor do mundo. O Taj Mahal tava de Taj Mahala, o português tava de baguete e o Chacrinha tava de abacaxi. Sabe quem ganhou? O japonês, porque ele enfiou dois pauzinhos no cu e fez VUUUUMMMM"
Enfim, existem diversas outras pérolas humorísticas desse colega envolvendo "um Taj Mahal, um William Bonner e o cavaleiro branco do cavalo preto e branco" ou coisa que o valha, mas irei me deter por aqui, porque sinto que esse insólito senso de humor já está bem ilustrado e registrado para o divertimento de terceiros. Só queria chamar a atenção para o curioso fato de que as piadas geralmente são resolvidas por personagens que não haviam sido mencionados no início, recurso literário que causa um estranhamento bastante bem-vindo na estrutura fechada e previsível das piadas consideradas "normais".
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Fragmento II
Quando estes seres vivos passaram a arriscar seus primeiros passos no reino da abstração, desenvolvendo esse misterioso processo ao qual chamamos "consciência", a lógica do acaso se adaptou a uma nova forma de existência; agora, conceitos intangíveis também influiam na seleção. Quando a sociedade começou a se estratificar, aqueles que (para citar apenas um exemplo), tendo a sorte de ter observado uma conjunção de fatores, houvessem realizado algum tipo de previsão, seriam aclamados como "sábios" e seriam elevados a um patamar social mais alto. Com o tempo, essa estrutura social, nascida de uma conjunção de acasos (afinal, como explicar que numa comunidade de humanos, haja uma diferenciação efetuada a partir de aspectos não-biológicos, abstratos?), se cristalizaria, distanciando-se do motivo original de sua criação em direção a um conjunto de códigos sociais que determinariam a vida em sociedade; assim, a partir de uma estrutura ditada pelo acaso, nasce um conjunto de regras que dita quem ocupa qual posição na sociedade, e quais são os direitos de cada uma das camadas sociais.
Com o tempo, algumas pessoas, indignadas com essas restrições pré-existentes a sua liberdade de desenvolvimento pessoal, passaram a chamar essa rígida estrutura social de "injusta". Ao petrificar a ação do acaso, estendendo às gerações ulteriores a organização das anteriores, impedia-se um acesso equânime às oportunidades de vida.
Pensou-se ter resolvido essa injustiça com a criação da Loteria Humana. A Loteria era a personificação da própria Justiça, diziam seus defensores; por meio dela, qualquer um poderia ter acesso a uma vida digna. Ao aproximar-se da maioridade, todos os cidadãos se inscreviam na Loteria; esta, por sua vez, sortearia o destino de cada um deles, dando chances iguais a todos.
É claro que, com o tempo, criaram-se medidas para restringir o comportamento totalmente imprevisível e caótico dos sorteios da Loteria. "Uma pessoa, afinal, deve ter o direito de trabalhar em uma área com a qual tenha maior afinidade; além disso, certos trabalhos são impróprios para certas pessoas". Dessa forma, criticava-se de forma velada a disparatosa noção de que um jovem de boa índole (leia-se, de família rica) viesse a trabalhar como gari.
Assim, os sorteios passaram a levar em conta certos parâmetros da vida dos candidatos; aqueles que comprovassem possuir vastos conhecimentos e grande erudição (leia-se, aqueles que não precisavam trabalhar desde cedo e portanto tinham tempo e dinheiro disponíveis para adquiri-los) eram, segundo a lógica dos defensores das reformas na Loteria, obviamente mais apropriados para cargos de caráter administrativo ou especializado. Na prática, o que isso significava é que o resultado da Loteria acabava dependendo justamente dos fatores que ela se esforçava em combater.
É claro que havia aqueles que tentavam aproveitar-se dessa lógica, lutando ao longo dos seis ou doze meses anteriores ao sorteio para adequar-se o máximo possível ao perfil de indivíduo que costumava ser sorteado para os cargos prestigiosos; tudo o que importava era abandonar-se cegamente a um modelo, derreter sua própria estrutura para caber no molde fornecido.
Henrique, no entanto, caminhava orgulhosamente em direção ao prédio em forma de balança que sediava a Loteria; ele havia se recusado a curvar-se a essa vontade cega, a esse elogio da estupidez. Ele se inscreveria na Loteria e acolheria um destino incerto, tal e qual nos saudosos tempos do caldeirão biológico onde surgira a vida.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Livro do Ano
1)Linha 1: "A linguagem, afinau, (...)"
2)Linha 5: "(...) pessoal e portanto impossível de, compartilhar."
3)Linha 7: "por isso, (...)"
4)Linha 10: "(...) um ato de ousadia que poderá facilmente ser classificados como preguiça (...)"
5)Linha 11: "(...) deixo algumas indicassões:"
6)Linha 15: "(...) quando tu encontrar no bolso de uma calça (...)"
7)Trivia 2: "A capital do Usbequistão é Bishkek" (A capital do Usbequistão é Taskent; Bishkek é a capital da Quirguízia)
Eu tinha pensado em colocar aqui também algumas coisas que eu tinha escrito pra página e acabei cortando; relendo, achei meio brega. Talvez eu mude de idéia no futuro...
