“(...)
Quando cheguei ao casebre de pedra, mal contive minha agitação ao bater três vezes na porta. Assim que o homem abriu a porta, tive certeza de que ele era exatamente aquilo sobre o qual ouvira falar: reconheci em seu rosto a mesma expressão de irônico desdém de quem já viu demais, as mesmas feições de idade indefinível. Sabia, no entanto, que ele não me reconhecera como um igual; assim, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa para me dispensar, adiantei-me:
‘Sou um imortal como você, embora suspeite que tenha nascido depois. Nos últimos anos tenho pensado em me matar; gostaria de saber porque você ainda não o fez.’
O outro ficou quieto; apenas indicou, com um gesto, que eu deveria entrar. Sentamo-nos em uma sala parcamente mobiliada, ele em uma poltrona e eu em uma cadeira de madeira levemente carcomida.
‘Já percebeu, então, que a imortalidade é uma maldição tanto quanto é uma bênção’, disse ele, após alguns minutos de silêncio. Limitei-me a menear a cabeça afirmativamente; ele contemplou meu rosto por alguns segundos, e continuou: ‘Quando criança, sempre tive muito medo da morte. À medida que os anos se passaram e eu não só não envelheci na mesma velocidade que meus companheiros como também sobrevivi além do tempo de vida de todos eles (bem como de seus filhos e de seus netos), senti-me como que grandemente abençoado: a mim, justo a mim, fora concedido ser livre das correntes impiedosas do tempo! Eu estava destinado a não carregar o grande peso da condição humana!’
‘Foi exatamente o que eu pensava no início’, respondi.
‘Os seres humanos são previsíveis; estão presos à eterna busca pelo conforto. Sei que o que digo não é novidade para você; é fácil imaginar qual a reação de qualquer pessoa à novidade de não precisar lidar com o sofrimento futuro’
‘Os seres humanos são previsíveis demais... o mundo é previsível demais...’
Ele limitou-se a gargalhar.
‘Você fala do ponto de vista da Eternidade... já deve ter se acostumado a esse tipo de vida. Um homem comum, vivendo seus sessenta ou setenta anos, contenta-se com o espetáculo da vida, e até pede por mais ao fim; mais alguém como nós é capaz de perceber os padrões que se repetem, as multidões que, apesar das conjunturas, continuam buscando a mesma coisa, e por isso o tédio é inevitável’
‘Mas mesmo assim você continua vivo.’
‘É possível matar um imortal? Não sei se conseguiria me suicidar mesmo que quisesse. Mas mesmo assim, há muitos anos cheguei a uma conclusão – tirar a própria vida é tão sem sentido quanto continuar vivendo. Tornar-me nulo equivale a viver uma vida nula neste mundo; e caso exista algum tipo de vida após a morte, acabarei indo para lá de qualquer jeito. Já vivi até agora – para que terminar com tudo? Quando a humanidade já tiver se esvaído desse planeta, caminharei sozinho pelos desertos silenciosos, uma solidão não de todo diferente daquela que vivo a cada dia de minha vida, ser único que sou.’
‘Você não caminhará sozinho. Eu também estarei lá.’
‘É o que veremos...’
Depois conversamos apenas sobre trivialidades; quis saber que tipo de coisa ocupava seus dias, e ele me disse que há muito tempo decidira empenhar-se em desempenhar tarefas que só ele poderia realizar, como contar a areia de uma praia. Ele desistira ao perceber que aquilo que se entendia por ‘praia’ não era eterno e estava em constante mutação com as marés; percebeu que aquela tarefa era análoga ao árduo trabalho diário de desembaralhar a confusão a que chamamos de realidade, de dar um sentido à essa vida que talvez não admita um sentido, e Deus (e por que é que invoco seu nome? Puro uso de uma expressão, ou alguma secreta esperança de que haja algo além desse cotidiano enfadonho, algo que me concedeu a imortalidade para que eu desempenhe algum papel obscuro?) sabe que eu, mais do que ninguém, tenho consciência do enorme absurdo que é a vida. O outro imortal, no entanto, passa seus dias sozinho, vivendo o Absurdo em sua expressão máxima; não sei se é louco ou santo, talvez os dois.
Ao encerrar a visita e me afastar da casa, joguei o revólver que carregava comigo em um lago profundo. Começo a achar que errei; sinto que algum dia voltarei para buscá-lo, e talvez seja lá que eu termine meus infindáveis dias.”